Certidão de nascimento
Uma moça de seus 20 e tantos anos traz seu filho de 6 anos ao
Cartório de Paramanari, município de Marupiara. Estado do Pará, região norte do Brasil.
para fazer o registro civil de nascimento.
Sentado a frente da mesa de fórmica cinza velha e suja, o escrivão esta absorto nas imagens do pornotube onde 2 mulheres e um homem executam uma serie de movimentos corporais.Percebendo a aproximação da moça ele minimiza na tela e espera ela chegar mais perto oferecendo uma cadeira. – Por favor, o que a moça deseja?A criança larga a mão da mãe e retorna a porta onde fica olhando, quieto, calado o movimento matinal da rua central do município.
A MOÇA AJEITA O VESTIDO DE PANO FLORIDO, ABRE A BOLSA DE PALHINHA MARROM, TIRA UM BOMBOM DE MENTA E EXPLICA O SEU DESEJO.
- Eu vim registrar meu filho, a escola dele quer uma certidão de nascimento.
O escrevente abre o programa de registro.- Seu Nome:
- Ângela Maria da Cunha.
Nome do filho.
- Juliano Boto Chimbinha da Silva
É meio estranho viu; Boto. O chimbinha é o da banda Calipso não é? Eles foram indicados para o premio Nobel da paz. Não seria melhor para “Os prêmios Ig Nobel ® ” Sabe, fui no site e indiquei o nome deles a eleição é agora, setembro de 2010. A moça mexe, conhece internet?
- Vou sempre na lan hause perto de casa. Eu tenho Orkut. Agora o tio pode continuar.
Tio não que não sou teu parente. Idade.
- 23 Anos. Do filho.
- Vai fazer 6 anos.
Nome do pai.
- O Boto.
- Moça,, eu não posso registrar ele como filho do boto. Imagine quando ele crescer, quando ele tiver namorada e ai perguntarem quem foi o pai dele? Diga com toda franqueza seu filho não vai sentir vergonha?
- Mas é ele o pai dele, tenho certeza, foi verdade, eu estava na festa do ‘POPSOM‘ lá na sede do BEIRARIO, eu era moça virgem quando ele me abduziu.- Que abduziu é este moça? Boto é uma lenda amazônica, um ser encantado e não um alienígena, por algum acaso ele desceu de uma nave, melhor dizendo de um rio espacial.
- Mas o tio é chato. O filho é meu, o pai foi o Boto tucuxi, ele dançou, bebeu, namorou comigo, fomos lá por trás naquele barranco perto do mangal. A maré estava seca, fiquei cheia de calombo de mosquito, ele depois que montou em mim, gozou, foi embora. E ai fui ou não fui abduzida? E para de tirar sarro da minha cara? E sou mulher casada viu?
- Moça você casou com o boto?
- Brinque com isso não? O Roney Rodrigues dos Santos é um bom homem, até que quis colocar o nome dele como pai.
- E porque a moça não aceitou?
- Por que. Porque eu não minto, porque nunca mais vou ter uma noite como aquela.
Ângela Maria chama o garoto que estava na porta do cartório olhando a movimentação da rua.
– Julio vem aqui.
Lembrando depois o escriturário comenta com a esposa. –Assim que a mãe chamou e o garoto virou e veio bem devagar andando na minha direção. Samira te juro. Juro-te por tudo quanto é mais sagrado. - Lá fora o dia estava ensolarado, ventilado, carros e motos passavam rumo a estrada. Ai lá atrás, atrás dele o tempo parou. Num instante ele estava ao lado da mãe. Ela tira o boné do clube do Remo. Ela diz – Encoste o dedo. O garoto baixa a cabeça. Eu passo a mão pelos cabelos lisos úmidos cinza escuro e ao chegar no alto, no cocuruto, noto um buraco, saindo dele sinto um vento e ouço um barulho de, sabe;Um assoprar um ventinho, Fuuuu passando entre meus dedos. Olho e nos olhos do garoto (ele rindo sem abrir a boca) eu vejo, vejo tudo. Nem sei mais o que vi! Um rio escuro barrento. Embaixo um luminoso reino. La, estão lá os encantados. TEM! Uma luz branca saindo ou entrando de um tronco, da raiz de uma sumaumeira. Tudo rápido. Rápido desaparece. Tiro o dedo e curioso pergunto. - Ele sabe nadar?
A moça - Não deixo ele chegar nem perto de rio, igarapé, furo ou lago. Banho normal de chuveiro todo dia é uma luta ele sair. Ai não teve jeito. – Moça, vai ficar assim. Nome do Pai: Pisciano boto da Silva. Pode?
Angela Maria da Cunha coloca o bone na cabeça do filho, agradecida, abraça o filho e diz. - Pode.








