Desventura

Dois policiais: Ronaldo e Oziél, em sua ronda matinal pelo bairro de Nazaré localizaram um homem dormindo em um banco de pedra do jardim em frente ao altar envidraçado da Nossa Senhora de Nazaré na praça Santuário. Ronaldo abriu o cadeado do portão de entrada. Oziél foi à frente e com o cassetete ficou cutucando o homem que roncava alto e tinha braço esquerdo passado na frente dos olhos protegendo os do sol, e estava babando na camisa embolorada na nuca  feito travesseiro.

Oziél - Ê meu, acorda ai umbora, acorda ai meu. Tu não pode dormir aqui não. O homem engata uma segunda, ronca mais alto, resmunga e se ajeita, virando de lado. O banco é estreito e ele acaba caindo no chão acordando assustado. Ronaldo ao se abaixar para ajudar o homem a levantar, sente a respiração quente, o bafo podre de bebida e cigarro. Ele pega as mãos e puxa com força o homem que senta no banco. Ronaldo recua um pouco e fala para o outro policial Oziél. - Mais um bêbado pra encher o saco da gente. Mas o como é que ele conseguiu entrar aqui na praça? Ê meu! O policial cutuca com o cassetete o homem. Tu não sabes que é proibido entrar depois que os portões fecham. 

O bêbado com os olhos remelentos, com uma cara de pia mal lavada coça a cabeça eriçando mais os cabelos de vasculho. Logo depois ele junta as mãos e murmura uma reza. Oziél presta mais a atenção a ele e pergunta.

- Ta com algum problema? Ta rezando? Como conseguiu entrar na praça, os seguranças da santa retiram todo mundo antes de fechar os portões.

O Bêbado termina de rezar, tenta se levantar e não consegue por causa de uma tonteira. Senta novamente e solta uma exclamação de dor e espanto. Olha para o altar onde uma replica abençoada da estatua da santa está protegida por vidros blindados, ele murmura um agradecimento, olha para os policiais e faz uma pergunta. - Seus guardas sabem o que foi que aconteceu comigo? Não. Seus guardas nem acredito que estou vivo. Meu deus do céu. Minha nossa senhora me guarde.Depois dessa eu juro, juro nunca mais bebo não.Ele  senta novamente, remexe os bolsos da calça jeans, tira um cigarro e acende com o isqueiro, do outro bolso ele puxa  e oferece a carteira de trabalho para os policiais verem.

Oziél - Nome: Elias Cordeiro de Farias, pescador, 58 anos, nascido em Colares. Tu estas bem longe da tua terra. Faz o seguinte conta pra nós como foi que tu dormiu  na praça?

Ronaldo - Como foi entrou em uma praça que estava fechado para o uso publico?

O bêbado - Calma, calma lá seu guarda que eu sou uma pessoa de paz sou marginal não. Eu só bebo socialmente, acontece que ontem eu vim de lá de casa, lá de Tupanema que fica lá mesmo em Colares. Cheguei aqui em Belém e fui logo para casa de minha filha, ela teve bebê. Tava ainda no hospital. Fui lá. Menino, linda criança, ai eu quis sair com meu genro, mas não é que ele não quis pagar o mijo, disse que tinha trabalho de noite que era garçom numa casa de recepção. Ai eu fui eu mesmo. A gente tem de comemorar né. Resolvi conhecer a cidade que ta grande, bonita, cheia de prédio.  Vim ver o arraial, tinha uma encomenda da Eliana ela quer um terço. Mas ta caro, mesmo assim comprei. Pois é né,tava eu na mesa lá do bar, bebericando uma cerveja e vendo a roda gigante girar, ai apareceu uma morena e ela sentou na mesa ao lado e pediu um refrigerante. Seus guardas. Olhe que vou te dizer que, puxa vida. Um morenão, parruda, do jeito que gosto. E fiquei pensando “Há se essa morena me dá bola” Sabe seus guardas. Não foi que a parruda meu deu bola e talvez, muito do talvez tenha passado um pouco, pouquinho só da conta.

Em pé a frente do bêbado a dupla de policial  conversa entre si.

Oziél. - Vamos relaxar com esse ai, é inofensivo.

Ronaldo - Temos que saber como ele entrou e dormiu na praça santuário os portões são fechados pela guarda da santa, ele tem de se explicar, quer dizer que ele, bêbado como estava, invadiu uma praça gradeada?

Oziél. – Mas o cara não fez nada, vamos deixar ele ir?

Ronaldo. - Faz o seguinte, parece que tu tens certa simpatia por bêbados, Vou seguir em frente, continuar com a ronda, tu ficas ai com ele e descobre como ele entrou na praça, Na volta a gente decide, ai a gente libera ele, ou não.

Oziél faz que sim com a cabeça,  espera o outro ir andando e senta ao lado de bêbado.

- Vamos lá conte direito a sua história que o meu parceiro ta a fim de te levar.

- Tem água gelada!

- Não. Conte a sua história.

- Tem água? Gelada por favor, a garganta esta seca. Tem aspirina?

- Olha a paciência, como foi que entrou na praça?

- Seu guarda, olhe vamos ali na calçada o bombozeiro vende, ele tem garrafa de água mineral, eu juro que não vou fugir. Seu guarda relaxa vai, eu não estou bem, uma ressaca das brabas, dói todo corpo.

- Como foi que entrou na praça? As grades são altas. Responde que depois tu bebes tua água.

- Seu guarda, foi a morena que mulher linda, uma mulata rabuda. Estou lembrando. Vou ti contar ta? Mas não vai dizer pra Eliana, senão ela me larga e nem a filha que ela ta na enfermaria ainda.Tu imaginas, imagina só como te disse a morena deu bola e na hora passei para a mesa dela que eu não ia perder a oportunidade, ai a gente engatou um léro. Papo vai, papo vem, um espeto de carne, um espeto de frango, desce mais uma Cerveja, não é que a morena se encantou, disse que gostava de homem maduro,  e eu só o pensando cá comigo  “ tu vai já vê o que ta duro” Só sei seu guarda que a gente foi os últimos a sair do bar do arraial, ai a gente foi pro ponto do ônibus ali frente aquela loja, a morena ia me levar pra casa dela. Ai o ônibus não vinha e a parada tava deserta, ai eu agarrei a morena, beijei, encostei na mangueira. Tu és besta, seu guarda a morena ficou doida por mim, e vai lá, e vem cá. Seu guarda, no melhor pois não é que a morena ficou doida, doida mesmo. Seu guarda eu brochei na hora, como é que vou transar com uma mulher assim, de mais que repente ela pegou santo, eu já estava acochado nela. Égua que elatava era com um exu, uma exua sei lá, a doida me agarrou pelo cabelo e montou em mim. Seu guarda, ela  gritava, berrava e me mordia. Olhe só atrás da minha nuca. Seu Guarda, eu sei foi que na raiva eu dei uma porrada na morena que ela foi varar longe, no meio da rua. Ai seu guarda, é aí que esta o problema.

- Vem me dizer que tu pulaste o muro, mais de dois metros de altura?

- É ai que ta, só sei que a morena doida se levantou e veio pra cima de mim e eu corri, não tive outra, corria e rezava, corria e rezava. O que lembro seu guarda é que na corrida eu dei a volta pela praça que tem um portão para cada lado não é. Pois é.

- Pois é o que?

- É seu guarda é melhor tu me levar preso mesmo, tu não vai me acreditar, mas olhe que te digo, numa dessa volta, assim sem que nem pra que o portão abriu e  eu entrei correndo, inda olhei para trás, e o que vi nunca mais vou esquecer em toda minha vida. Seu guarda, seu guarda, pois não tinha um anjo todo iluminado lutando contra umdemônio escuro na calçada da rua em frente da igreja. E a morena tinha sumido. Seu guarda, ja aqui dentro eu sentei neste banco. Tremi todo, fechei os olhos, chorei, chorei. Rezei, rezei e olhe seu guarda eu fiz uma promessa que vou cumprir. Todo ano eu vou vir a Belém acompanhar o Círio e vai ser na corda, porque seu guarda vou te dizer uma coisa. Só pode ter sido, mas que foi milagre foi. Nunca tinha visto nada daquilo, mas aquela morena rabuda não era gente não,  aquilo era coisa ruim.

O policial Oziél com o olhar de quem tem medo dessas coisas, decide.

- Faz o seguinte, vai beber tua água, vai para tua casa, toma um banho, vai ver tua filha, vai ver teu neto. Não conta nada pra tua Eliana. Agora vai logo antes que o meu parceiro chegue, ele não ia entender, nem aceitar, mas essa história é tão absurda que só pode ser verdade. Vai logo embora.