Um novo lar

Domingo, noite, cidade de Belém, as lojas do bairro do Comercio estão fechadas após um movimentado dia de compras natalinas, os caminhões e a equipe de limpeza urbana ainda não chegaram, com isso  os quarteirões estão com suas ruas desertas.
O vento assovia por entre as placas de propaganda e se espalha, formando redemoinhos de poeira e papéis e sacos plásticos. Vigias, guardas noturnos jogam baralho na esquina da Paraisolandia tecidos. 
Carros passam velozmente pela avenida 9 de fevereiro, iluminando as calçadas repletas de mendigos dormindo. Baratas sobem pelo ralo da vala e se espalham pela rua, entrando e saindo dos sacos de lixos. 
De cima de uma placa de propaganda da sapataria Beloso surge uma branca coruja rasga mortalha que descendo pelo meio da rua em um vôo rasante e rápido, apanha com suas garras afiadas um pequeno camundongo.
Em uma rua transversal, uma loja de importados pegou fogo, ruiu e hoje é um terreno baldio onde o Murilo, um garoto de 13 anos entra por uma estreita abertura na cerca de ripas de madeiras apodrecidas com vários maços de jornais. Ana Luzia de 14 anos esta sentada no chão de azulejos sujos abrindo os papelões para servir de colchão.
Murilo senta em frente e abre uma garrafinha de água mineral e cheira a cola de sapateiro.
- Quer Ana Luzia?
- Quero não, já estô sem sono.
Ela ajeita os papelões em uma única pilha, pega a bolsa de plástico preto, tira e acende um cigarro. Coloca os jornais atrás da cabeça e deita na cama. Murilo deita ao lado, aspirando e respirando ritmicamente, e sentindo o cheiro ativo, Ana Luzia pega a garrafinha e inala com força, cheirando na boca garrafa a cola de sapateiro.
Murilo ajeita os jornais para servir de travesseiro e lençol. Ana Luzia levanta da cama e vai mijar lá no fundo do  matagal do fundo do terreno. Acocorada na escuridão perto do muro ela solta uma urina forte e espumante, termina  e ao se limpar com pedaços de papel jornal ela vê algo estranho. Ana Luzia vê uma claridade surgir de um dentro do tronco de uma arvore próxima, um facho forte de luz branca azulada como se fosse um flash de câmera espoca no rosto dela. Ana Luzia fica parada e sua reação automática é ajeitar a saia jeans e passar as mãos nas pernas para limpar o xixi escorrido durante o susto. Nisso ela vê um pequeno vulto saindo de dentro do foco de luz e se mexer mais adiante. Mais susto ela toma. Grita chamando pelo Murilo que chega correndo, puxando da bermuda sua faca, ele também vê o pequeno vulto na contra luz e com medo pergunta.
- Quem é? Quem é que ta ai?
A luz se apaga e da súbita semi-escuridão eles percebem que se trata de um garotinho do tamanho das pernas deles. Uns 60, 70 centimentros de alturta de cabelos vermelhos desgrenhados, com grandes olhos cinza, azul escuro, amarelo, vermelho, olhos que a cada piscada das pálpebras muda de cor. Ele é magrinho, sem camisa, moreno de feições indigenas e com uma espécie de short feito de palha ou algo parecido. 
Ele esta todo sujo de fuligem e com arranhões  e pequenas queimaduras pelo corpo. Ana Luzia agora sem medo, ajeita mais a sua roupa e vai até o pequenino, se abaixa ficando rente a ele e pega na sua mãozinha e pergunta.
- Ta todo sujo coitadinho, Tu é muito jitinho, como é teu nome?
O Curupira pisca os verdes olhos vermelhos, coça a cabeleira ruiva, mexe os pés para o lado, para frente e para trás.
Murilo - Uau!  Jóia. Olha o que o moleque fez. Faz de novo faz.
Ana Luzia leva o Curupira mais para frente do terreno e observa ele a luz que vem do poste da rua, faz o Curupira sentar na cama de papelão, pega um pedaço de pente na sua bolsa de plastico preto  e começa a pentear o cabelo dele.
- De onde tu vens?
- Ai, ai. Não sei.
Murilo. - Quantos anos tu tens?
- Doi.Ai, aiii. Não sei.
Ana Luzia - Olha só aqui Murilo ele tá cheio de piolho no cabelo. Olha moleque tu vai ter de ter limpar direito, a gente é que nem uma família, o Murilo é meu marido e eu sou a mulher dele. Tu quer ser meu filho?
Curupira - Não sei.
Ana Luzia - Sabe sim, a partir de agora tú é filho da gente, né Murilo.E teu nome.  Abom, depois te dou um nome. Já sei, já que tu tem cabelo meio vermelho, então teu nome vai ser, Colorau. Mas que olho tu tens, de cor e? Que tal Murilo.
- Sei lá, Já tou muito doido. Ta bom, bora dormir.
- Ta tem, tu vens dormir aqui junto de mim que a noite ta fria.
Curupira - Ta bom
Agarrado a menina o pequenino dorme profundamente e se agita, lembrando dos fatos ocorridos em seu antigo lar.
Era dia e de repente um ruído, barulho estranho na mata. Bichos correm e o curupira se apronta para despistar os caçadores, ele vai proteger a mata. Mas os homens não ligam para caça, eles estão subindo nas arvores, eles estão  enrolando correntes nos troncos serrados.
O barulho assusta os macacos pregos que fogem pelos galhos alvoroçados. Um rumoroso estrondoso ruído expulsa os pássaros de seus ninhos. Curupira corre para cá, corre para lá, não sabe o que fazer.
O barulho aumenta e ele quase é atropelado pelos os tratores que vão puxando e derrubando as arvores  e arrastando  pela mata.
Assim foi o dia inteiro, no fim da tarde o curupira sente o cheiro de fumaça, ele vê o fogo surgir quente forte. Beija flores, corujas, urutaus, bacuraus, curicacas, papagaios. Alçam võo. Jacamins. Surucucus, jacurarus, antas, cotias, todos eles correm, pulam, , rastejam, fogem desesperados, mas não adianta . Rápido o fogo se espalha em labaredas para todos os lados,  eles são queimados e a floresta arde em brasas.
Sem saber o que fazer o pequeno curupira, grita, pia, chora, chilreia em prantos, ele corre pelas trilhas em chamas , rodopia,cai e vai  para a arvore mais próxima, escondendo-se num buraco.
Sentindo o tremor do pequenino, Ana Luzia acorda, puxa ele mais para si, ajeita os jornais para cima dele e pergunta.
De onde tu veio?
- Eu tava lá na mata e ai veio os caçadores que tinham uns troços amarrando nas arvores, tinha uns bichos grandes. Um barulhão que puxou, derrubou; tudo, todo mundo correu, Veio o fogo e todo mundo morreu.
Ana Luzia.
- E como é que tu ta vivo?
- Não sei.

Desventura

Dois policiais: Ronaldo e Oziél, em sua ronda matinal pelo bairro de Nazaré localizaram um homem dormindo em um banco de pedra do jardim em frente ao altar envidraçado da Nossa Senhora de Nazaré na praça Santuário. Ronaldo abriu o cadeado do portão de entrada. Oziél foi à frente e com o cassetete ficou cutucando o homem que roncava alto e tinha braço esquerdo passado na frente dos olhos protegendo os do sol, e estava babando na camisa embolorada na nuca  feito travesseiro.

Oziél - Ê meu, acorda ai umbora, acorda ai meu. Tu não pode dormir aqui não. O homem engata uma segunda, ronca mais alto, resmunga e se ajeita, virando de lado. O banco é estreito e ele acaba caindo no chão acordando assustado. Ronaldo ao se abaixar para ajudar o homem a levantar, sente a respiração quente, o bafo podre de bebida e cigarro. Ele pega as mãos e puxa com força o homem que senta no banco. Ronaldo recua um pouco e fala para o outro policial Oziél. - Mais um bêbado pra encher o saco da gente. Mas o como é que ele conseguiu entrar aqui na praça? Ê meu! O policial cutuca com o cassetete o homem. Tu não sabes que é proibido entrar depois que os portões fecham. 

O bêbado com os olhos remelentos, com uma cara de pia mal lavada coça a cabeça eriçando mais os cabelos de vasculho. Logo depois ele junta as mãos e murmura uma reza. Oziél presta mais a atenção a ele e pergunta.

- Ta com algum problema? Ta rezando? Como conseguiu entrar na praça, os seguranças da santa retiram todo mundo antes de fechar os portões.

O Bêbado termina de rezar, tenta se levantar e não consegue por causa de uma tonteira. Senta novamente e solta uma exclamação de dor e espanto. Olha para o altar onde uma replica abençoada da estatua da santa está protegida por vidros blindados, ele murmura um agradecimento, olha para os policiais e faz uma pergunta. - Seus guardas sabem o que foi que aconteceu comigo? Não. Seus guardas nem acredito que estou vivo. Meu deus do céu. Minha nossa senhora me guarde.Depois dessa eu juro, juro nunca mais bebo não.Ele  senta novamente, remexe os bolsos da calça jeans, tira um cigarro e acende com o isqueiro, do outro bolso ele puxa  e oferece a carteira de trabalho para os policiais verem.

Oziél - Nome: Elias Cordeiro de Farias, pescador, 58 anos, nascido em Colares. Tu estas bem longe da tua terra. Faz o seguinte conta pra nós como foi que tu dormiu  na praça?

Ronaldo - Como foi entrou em uma praça que estava fechado para o uso publico?

O bêbado - Calma, calma lá seu guarda que eu sou uma pessoa de paz sou marginal não. Eu só bebo socialmente, acontece que ontem eu vim de lá de casa, lá de Tupanema que fica lá mesmo em Colares. Cheguei aqui em Belém e fui logo para casa de minha filha, ela teve bebê. Tava ainda no hospital. Fui lá. Menino, linda criança, ai eu quis sair com meu genro, mas não é que ele não quis pagar o mijo, disse que tinha trabalho de noite que era garçom numa casa de recepção. Ai eu fui eu mesmo. A gente tem de comemorar né. Resolvi conhecer a cidade que ta grande, bonita, cheia de prédio.  Vim ver o arraial, tinha uma encomenda da Eliana ela quer um terço. Mas ta caro, mesmo assim comprei. Pois é né,tava eu na mesa lá do bar, bebericando uma cerveja e vendo a roda gigante girar, ai apareceu uma morena e ela sentou na mesa ao lado e pediu um refrigerante. Seus guardas. Olhe que vou te dizer que, puxa vida. Um morenão, parruda, do jeito que gosto. E fiquei pensando “Há se essa morena me dá bola” Sabe seus guardas. Não foi que a parruda meu deu bola e talvez, muito do talvez tenha passado um pouco, pouquinho só da conta.

Em pé a frente do bêbado a dupla de policial  conversa entre si.

Oziél. - Vamos relaxar com esse ai, é inofensivo.

Ronaldo - Temos que saber como ele entrou e dormiu na praça santuário os portões são fechados pela guarda da santa, ele tem de se explicar, quer dizer que ele, bêbado como estava, invadiu uma praça gradeada?

Oziél. – Mas o cara não fez nada, vamos deixar ele ir?

Ronaldo. - Faz o seguinte, parece que tu tens certa simpatia por bêbados, Vou seguir em frente, continuar com a ronda, tu ficas ai com ele e descobre como ele entrou na praça, Na volta a gente decide, ai a gente libera ele, ou não.

Oziél faz que sim com a cabeça,  espera o outro ir andando e senta ao lado de bêbado.

- Vamos lá conte direito a sua história que o meu parceiro ta a fim de te levar.

- Tem água gelada!

- Não. Conte a sua história.

- Tem água? Gelada por favor, a garganta esta seca. Tem aspirina?

- Olha a paciência, como foi que entrou na praça?

- Seu guarda, olhe vamos ali na calçada o bombozeiro vende, ele tem garrafa de água mineral, eu juro que não vou fugir. Seu guarda relaxa vai, eu não estou bem, uma ressaca das brabas, dói todo corpo.

- Como foi que entrou na praça? As grades são altas. Responde que depois tu bebes tua água.

- Seu guarda, foi a morena que mulher linda, uma mulata rabuda. Estou lembrando. Vou ti contar ta? Mas não vai dizer pra Eliana, senão ela me larga e nem a filha que ela ta na enfermaria ainda.Tu imaginas, imagina só como te disse a morena deu bola e na hora passei para a mesa dela que eu não ia perder a oportunidade, ai a gente engatou um léro. Papo vai, papo vem, um espeto de carne, um espeto de frango, desce mais uma Cerveja, não é que a morena se encantou, disse que gostava de homem maduro,  e eu só o pensando cá comigo  “ tu vai já vê o que ta duro” Só sei seu guarda que a gente foi os últimos a sair do bar do arraial, ai a gente foi pro ponto do ônibus ali frente aquela loja, a morena ia me levar pra casa dela. Ai o ônibus não vinha e a parada tava deserta, ai eu agarrei a morena, beijei, encostei na mangueira. Tu és besta, seu guarda a morena ficou doida por mim, e vai lá, e vem cá. Seu guarda, no melhor pois não é que a morena ficou doida, doida mesmo. Seu guarda eu brochei na hora, como é que vou transar com uma mulher assim, de mais que repente ela pegou santo, eu já estava acochado nela. Égua que elatava era com um exu, uma exua sei lá, a doida me agarrou pelo cabelo e montou em mim. Seu guarda, ela  gritava, berrava e me mordia. Olhe só atrás da minha nuca. Seu Guarda, eu sei foi que na raiva eu dei uma porrada na morena que ela foi varar longe, no meio da rua. Ai seu guarda, é aí que esta o problema.

- Vem me dizer que tu pulaste o muro, mais de dois metros de altura?

- É ai que ta, só sei que a morena doida se levantou e veio pra cima de mim e eu corri, não tive outra, corria e rezava, corria e rezava. O que lembro seu guarda é que na corrida eu dei a volta pela praça que tem um portão para cada lado não é. Pois é.

- Pois é o que?

- É seu guarda é melhor tu me levar preso mesmo, tu não vai me acreditar, mas olhe que te digo, numa dessa volta, assim sem que nem pra que o portão abriu e  eu entrei correndo, inda olhei para trás, e o que vi nunca mais vou esquecer em toda minha vida. Seu guarda, seu guarda, pois não tinha um anjo todo iluminado lutando contra umdemônio escuro na calçada da rua em frente da igreja. E a morena tinha sumido. Seu guarda, ja aqui dentro eu sentei neste banco. Tremi todo, fechei os olhos, chorei, chorei. Rezei, rezei e olhe seu guarda eu fiz uma promessa que vou cumprir. Todo ano eu vou vir a Belém acompanhar o Círio e vai ser na corda, porque seu guarda vou te dizer uma coisa. Só pode ter sido, mas que foi milagre foi. Nunca tinha visto nada daquilo, mas aquela morena rabuda não era gente não,  aquilo era coisa ruim.

O policial Oziél com o olhar de quem tem medo dessas coisas, decide.

- Faz o seguinte, vai beber tua água, vai para tua casa, toma um banho, vai ver tua filha, vai ver teu neto. Não conta nada pra tua Eliana. Agora vai logo antes que o meu parceiro chegue, ele não ia entender, nem aceitar, mas essa história é tão absurda que só pode ser verdade. Vai logo embora.