Mãe do rio

Deitado na rede da sala, embrulhado em um lençol suado, fazendo da camisa, travesseiro. Mascarenhas, filho do seu Elpidio dos Santos pensa em sua esposa Mariana.
- Faz dias que ela foi à cidade buscar remédio para mim. Faz dias demais. Essa mulher me deixa preocupado. Nem liga mais pra mim, não me cuida direito, e eu aqui, emperrado nessa rede com essa malaria que vai e volta. Com dor no fígado, com febre, tremendo todo. Disse para ela. Não vou tomar remédio caseiro. Traz aquele remédio que o médico passou.
Balançando a rede com a força do pé esquerdo na parede da casa. Mascarenhas ajeita o dorso, embola mais a camisa atrás da cabeça e assim pode observar pela janela a paisagem externa de sua casa que fica um pouco antes da pequena praia do rio. Amarrado no trapiche de madeira, uma canoa balança na maresia das águas do rio. Garças brancas pousam em bandos nos galhos das arvores da outra margem. O vento revolve as folhas dos açaizais. Tranquilidade e modorra. Uma tarde de verão quente e ensolarado.

Mascarenhas com a mão esquerda espanta os mosquitos e no ir e vir da rede, no nhéém, nhéém do esse rangendo na escápula ele fica matutando, relembrando, coçando o saco.
Ontem vieram. Ou foi anteontem? Foi no domingo porque faz três dias que a Mariana foi a cidade. Hoje é segunda? Não, é terça. Vieram. Eu estava até dormindo. Tomei até um susto quando eu vi pela porta aberta, eles vindo, um grupo de 20, trinta pessoas, carregando foices, enxadas, espingardas nas mãos. Chegaram ao quintal e pararam na frente da porta. Da rede perguntei quem eram e o que queriam. Eram do MST, vinha perguntar se eu trabalhava na fazenda "Deus Dara", se esse terreno era meu ou também era da fazenda. Meu, respondi, o terreno de 10 hectares de pimenta do reino plantado é meu, tinha sido do meu pai que era amigo do seu Orlando, dono da fazenda que vocês querem tomar. Era do meu pai que faleceu ano passado da mesma malaria que eu estou hoje e a sepultura dele esta lá trás, querem ver? O documento esta registrado no cartório de Amuara. Por quê?

Perguntaram se tinha alguma coisa contra eles tomarem posse da terra. Por mim tudo bem, falei, Faz tempo que ele morreu e os filhos dele nunca me incomodaram.
Perguntaram se eles tinham capangas. Não que eu saiba, a fazenda estava assim, largada de mão porque os filhos do seu Orlando estavam brigando na justiça, os dois mais novos, o Junior e o Messias querem vender a fazenda. A Mariana a caçula não aceita, não quer de jeito nenhum, ela quer continuar com a fazenda.

Um deles, mais novo, com a arma na mão respondeu.
- Não se avexe não, temos nada contra ti não. Viemos apenas te dizer que nos vamos tomar a fazenda que fica do outro lado do rio, nos vai invadir e dividir em lotes a terra.
Da minha rede eu podia ver as pequenas ondas batendo na beira da praia de areia escura.
O grupo de sem terras foi embora, um ficou, o que parecia ser o lider.
- Se tu tiver gente, gente de bem que queira um lote, diz para falar comigo. Outra coisa, enquanto as cestas básicas do governo não chegam, diz ai um preço pelos teus legumes e verduras. Quero também algumas daquelas galinhas. Faz teu preço bom.

Mascarenhas não quis um lote, fez seu preço e vendeu toda a produção da horta, cinco galinhas e um galo velho. Isso foi há dias atrás. Hoje ele continua balançando na rede, ardendo de febre, espantando a malaria, pensando em nada que preste, esperando a esposa chegar. Nesse vai vem, nesse pensar em nada, nesse nhéém, nhéém. Mascarenhas sente cheiro de coisa queimada.

Tirando os olhos do pensamento, olhando para fora da mente, enxugando o suor de febre na camisa embolada, ele vê pelo retângulo da janela uma cena diferente daquela ao qual acostumou a ver.
No céu azulado, ensolarado, sobem grossas e espiraladas nuvens de fumaça. São eles, ele diz para si. São eles, resolveram queimar a floresta que protege o rio, coisa que meu pai e seu Orlando sempre fizeram questão de manter, nisso sempre estiveram de acordo.

Alvoroçadas as garças em bandos alçam vôo. Longas labaredas vermelhas atiçadas pelo vento chegam as copas das arvores. Barulho. Animais desesperados vem nadando do outro lado rio e chegam a areia da praia assustados e seguem em fuga pelo terreno adentro.
Negras nuvens de fumaça escurecem o céu. Com o pé ele para a rede. Um calafrio percorre todo o corpo e ele sua frio. Como se toda sua vida escorrace por esse suor. Ao mesmo tempo chega o calor da queimada, e ele sua quente. Fica seco, exalando um bodum de doença e falta de asseio. Vacilante ele tenta ficar de pé, mas a moleza malarenta não deixa.
Deitado na rede, apático ele observa a debandada geral dos bichos, fugindo da queimada. Por cima, pelos lados, por baixo de sua casa. Eles percorrem correndo, deslizando, pulando, voando. Cobras, cotias, antas, macacos de varias espécies. Pássaros, passarinhos, tucanos, pica-paus, periquitos, papagaios, gaviões, corujas passam no maior alarido.

Na pequena praia, grilos, caranguejinhos, centopéias, baratas, besouros, formigas, milhares de formigas chegam em galhos, ramos e folhas feitos barcos.
Mascarenhas sabendo que tem de se unir aos bichos e fugir do fogo, de novo tenta levantar da rede, mas os dias de febre alta e pouca alimentação o faz cair no chão de terra batida. E ele chora, por causa do ardume da fumaça, por causa da tristeza que foi ver um pouco mais a frente da casa uma preguiça morta e toda crestada.

Estou sem força, cansado, tonto, faz dias que não como, não cuido da pimenta do reino, minha mulher não apareceu ainda. Já devia ter vindo.
O fogo atravessou o rio e esta queimando os açaizeiros da minha beira, e. Eles deviam saber que não se deve queimar a mata. Tenho de fugir.
O fogo chegou a palha do teto e a fumaça invade a casa. Tudo meu vai ser queimado. Eu tenho de levantar, sair de casa.
Trêmulo Mascarenhas consegue se levantar, sair da casa, no mesmo instante uma brasa do teto cai na camisa embolada e a rede começa a queimar. Ele tosse, os olhos lagrimam de tanta fumaça. Ele arrasta os pés para fora, anda trôpego por entre cupuazeiros, abacateiros e jambeiros. Para perto de uma jaqueira. Fogo tomou conta de seu pomar. Ele junta força ruma a praia.
Anos e anos de cuidado com a terra, com a floresta circundante, com a plantação de pimenta do reino, com o pomar, a horta. E agora isso. Tudo queimado.

Mascarenhas tropeça em um macaquinho carbonizado e cai na areia suja de fuligem.
- A minha casa. A parede de tabuas de madeira, a mesa, as cadeiras, a cama de casal que custou tão caro, as roupas da minha esposa, o espelho e a cômoda. Tudo arde. Tenho de fugir. Sair daqui, tenho de chegar a água. Com mais pressa caminho. Tusso, cuspo, choro. Caio, levanto, me firo, arranho todo, meus braços, meu dorso, o rosto e cabelos estão queimando. Areia entranhando nos poros. Consigo. Chego ao rio. Mergulho na água. Shisss, estou a salvo, com apenas a cabeça de fora, fico de bubuia assistindo o incendiar, o abrasar de toda uma vida.

O tempo passa. Cansado, exaurido fico deitado na areia. As ondas do rio escurecem. Mosquitos sugam meu sangue. Frio. Frio, a malaria retorna, sem ter para onde ir, sem nada a me aquecer, sem casa, sem mulher, sem plantação, fico tiritando, arrepiado de tanto frio. Noite sem lua, sinto meu corpo molhado oscilar. Aterrado na praia suja, na beira do rio observo os animais mortos passarem boiando seguindo o rio. O dia foi embora. Tudo escuro, breu, apenas o piscar das estrelas e o vermelho das brasas em arvores queimadas que estalam, range e crepitam seus últimos momentos.

Onde estará minha esposa? Ouço um canto. De onde vem que musica é essa. Mais parece uma carpideira chorando a perda da floresta. Ouço um canto, um chamamento. Como uma reza sem palavras. Será que já morri? Quem esta a me chamar assim?
Sinto meu corpo molhado balançar, balançar, flutuar nas águas deste rio que quer me levar, que ele esta me levando para perto deste lindo canto.

Ouço, sim eu ouço o rio cantar. “Rio levando rio, levando rio...”

Ou será que és tu mãe, és tu que canta que entoa esta reza? Se é chegada minha hora. Se for. Leva-me minha mãe. Leva-me para dentro deste rio. Deixa-me ser parte dele, parte da floresta.
Um ar corrente exala um olor de resina quente, como um próximo aroma de seio materno. No ar, uma essência de cheiro de mato vivo, uma liquidez me envolve e me faz esquecer o fedor de queimado das carnes dos animais mortos.

Um abraço fluídico me envolve e uma corrente encantada me leva para dentro do rio e me sinto ir, fluir, seguir para um outro curso, outro rumo, quem sabe uma outra vida.