Noite tensa, noite escura
Noite escura, noite sem calma, noite sem lua. Rua, extenso muro de tijolos de uma fabrica de caulim.
Uma rua sem calçada, feita de buracos e asfalto, rodeada de mato empoeirado, poluido.
Um poste de luz a cada mil metros. Luminárias quebradas.Sem luz.
Casas de madeira, telhados de folhas de palmeira, casa de barros crus, ralos jardins à frente,
flores na escuridão da madrugada sombria e assombrada.
Uma ponte. Ou. Partes de uma antiga ponte de concreto que foi desarmado com a passagem do tempo, falta de manutenção e veículos pesados.
Embaixo um rio, rio branco e lodoso, cremoso de dejetos, resíduos de caulim da empresa Imerys.
Acima o céu cheio de nuvens negras e vento frio, cortante.Grilos, cri cri.
Sapos contaminados coaxam, coaxam roucamente. Mosquitos, mosquitos e mosquitos.Vuuuu, o vento vem e ondula a superfície do rio balançando as plantas, os mururés.
Uh,uh,
uma coruja pia passando voando bem próximo a beira do rio, pegando com as suas garras fortes a afiadas um pequeno rato que estava pronto a pegar um diminuto peixe morto.
Em pé ao lado da ponte, parado, de costa para o rio.Amedrontado e pensativo, Neldison olha, olha para a penumbrosa noite escura e escuta aqui, escuta ali estranhos trinados
Neldison ouve, assunta no escuro, espera. Ruídos, ruídos. Sussuros e gritos.
Pios, silvos, rastejos e barulhos de folhas caindo, galhos quebrando, galhos quebrados, voares e chilreios esquisitos, Um, zum zumzum de insetos, um flap flap de morcegos frutiferos, uns pisss, pusss. Porém, destacando-se de todos os sons, ouve-se ao longo um fino e desumano.um longo silvo
FiiiiiTfiiuuuuuuu. Agora sim, era o que ele esperava, este assovio.
- E ela, é hoje, tenho que falar com ela, tenho de pedir a ela. Isso não pode mais ficar assim, com firmeza pensa Neldison. Nem que seja na marra, mas eu a levo de volta casa.
Com a proximidade, um vazio sonoro se estabeleçe, um enorme e ruidoso silencio, um vago, norturno e temeroso vazio.Apenas o assovio.Fiitifiuu. Fiiiiitfiu.
E ela vem vindo, passando pelos lados do muro da fabrica, lá do inicio da rua esburacada.
Neldison vacila pressente a chegada e sua firmeza vai embora.
Medo, da chinela ao boné o corpo treme de medo.Na friagem da noite, ele sua, molha partes da camisa branca.
- Helena, é por ti Helena. Ele em pensamento reafirma a decisão tomada anteriormente.Ele vai levar de volta.
Fiiiiitfiiiuuuuuuuuuu. Mais perto chega o assovio.
Medo, mais medo, o estomago e o esfíncter contrai, ele fica retesado, puxa a aspiração, respira com força, cria coragem e ,ele pensa em caminhar para a beira da rua, para interpelar, parar de vez com isso. decidido.
Fiiiii fiiiiiuuuuuuuuuuuuuu.
O longo e assustador assovio atravessa os tímpanos e ele tampa os ouvidos com as mãos tremulas.
Medomedomedo. Fiiiiiiitfiiiiiiiuuuuuuuu.
Ao seu redor e em toda área próxima centenas de vagalumes piscam alertas, dançam com as sombras escuras da noite, um bailado primitivo, natural e sobrenatural.
E ele recua, a coragem, a decisão, a obstinação, tudo nele recua.Alterado, angustiado ele estaca, recua mais, mais e mais, pisa numa poça de lama, recua, recua. Não acha mais alguma coragem para enfrentar a situação.
Fiiitfiiiu. Fiiiitfiiiiiiiiuuuuuuuuuu. O assovio assovia mais próximo fica.
- Não dá. Não tenho como, não posso. Eu se eu virar também?
Prontamente, medrosamente ele corre para baixo da ponte e se esconde no vão da pilastra.
Ela chega, perto dela a noite fica tensa, mais escura.
E ela vem pela rua da noite escura um vulto escuro, pequeno vem, fiiiuuuuuu.
vem devagarzinho vindo, arrastando as sandálias e o vestido imundo range ao roçar na pele dura das finas e magras pernas. Fiiiuuu. Um vagalume, não! Uma brasa de cigarro tragado sobressai um lado do rosto da velha de olhos magoados, assombrados, de cabelos brancos sujos e descabelados.
Fiiitfiiuuu, mais um trago, fumaças expelidas pelas narinas abertas, soltando pelos labios um bafo quente, pútrido de lábios cansando e ressequidos, rachados com poucos dentes podres enegrecidos.
O lodoso contaminado rio para, coagula e pastosamente solidifica-se como um vomito seco e sinuoso.
Fedor do rio, mau cheiro dela que passa pela ponte assoviando. Emudecido Nieldson apavorado observa de lá debaixo da ponte. Ele trinca os dentes, ele ouve mais um assovio e lagrimas caem do seu rosto.
Entre um assovio e outro ela ao vazio da noite, tristemente pergunta.
– Quem quer? Quem quer?
Puxa do bolso a garrafa de cachaça, bebe um gole, pita o cigarro e pela rua agora estrada ela vai com sua sina.
A coruja pousada em cima da luminária quebrada do poste de luz, com seus olhos líquidos, com seus bico rasgando, sangrando e comendo o rato apanhado, observa movendo a cabeça para a ver passar,
Nieldison branco como o rio contaminado reza uma, duas três ave marias e 1,2,3,4, cinco padre nossos e cabisbaixo ele chega a sua casa de barro. Bate na porta.
Atras dele ficou um momento penumbroso em que ele podia ter feito, mas não fez,
felizmente agora que o mau agouro, a tristeza passou. O dia parece que amanhece.
Pássaros e passarinhos, agora acordados, trinam novidades,cantam aleivosias, chilreiam a chegada do dia.
Casa de barro telhado de folhas de palmeira, porta de madeira novamente ele bate.
Sua esposa, Helena abre a porta que range dobradiças enferrujadas, com olhar perguntador avista o marido, abre mais a porta para deixar ele entrar.
Na sala cozinha ele para, baixa os olhos, entrelaça os braços tremelicando.
Com a calma de quem conhece e ama muito. Helena o abraça fortemente, respeitosamente passando conforto, calor e amor.Nos ombros dela ele chora. Ele chora todo o susto passado.
Murmurando em seu ouvido ela pergunta?
- Conseguiu falar com ela?
- Não, não consegui, tive medo,corri e me escondi embaixo da ponte. Não deu, mais uma vez não deu. Tenho muito medo do que ela se tornou.Tenho muito medo de me tornar iqual a ela.
- Deixa isso pra lá, não tem mais jeito, deixa ela cumprir a sua sina.
- Mas é a tua mãe!
- Não é mais!
- Como tu podes ser assim? É a tua mãe, poxa.
Largando e bruscamente empurrando o marido para longe de si. Ela responde com raiva e frustração.
- Não é mais, ela é uma, ela se tornou uma Matinta Perera. Aceita isso. Eu rezo a deus por ela a toda hora. Esquece quem sabe um dia ela tenha cumprido toda sua sina. Quem sabe? Ai sim ela volta a ser novamente minha mãe. Tabom disso, vem, vem tirar essa roupa, vem, vamos entrar, vem, vamos dormir um pouco. Vem deitar comigo vem.








