Um pajé aposentado.
Sexta feira, três horas da tarde. Nelson um pajé aposentado espera na fila do banco para receber o dinheiro da sua aposentadoria e conversa pelo celular com um amigo.
- Pior não pode ficar. Tu não achas que eu com 85 anos, viúvo, morando na taba da minha filha que tem três filhos homens e um marido. Tu não achas que eles deveriam construir uma maloca só pra mim?
Kanari o amigo do aposentado.
- Mas para que tu queres morar só? Tu não recebe mais os espíritos, não faz mais pajelança, não cura mais ninguém. Fica ai com tua filha. Olha não fala muito que vai ficar caro essa ligação.
- Esse celular esta com bônus. Escuta só, amanhã a gente vai fazer um ensaio para o ritual, tu vens? Andas faltando muito.
- Vai ter birita?
- Não na frente dos turistas.
- Eles não podem ver índio bebendo? Eles vão estar no ensaio?
- Que! Eles bebem mais que a gente. Foi uma ongui inglesa que vai filmar a gente. Pagaram bem, vamos ter um adicional.Olha a fila esta andando, te ligo depois.
Kanari sentado a frente da tela da parede da sala da sua taba, coloca o celular na mesa de centro e pega a latinha de cerveja, muda para o canal pornô.100 duplas (homem,mulher) de 100 paises competem online para saber quem passa mais tempo transando na cama, o premio é de 100 mil Euros.
No banco, Nelson anda dois passos na xtensa fila de idosos do banco Panamazônico da aldeia de Catipuru. Aborrecido ele liga para filha.
- Mariina o que tu estas fazendo?
- Atendendo o celular.
- Deixa de ser chata. Olha que sou teu pai. Tu vais preparar os salgadinhos para vender no ritual?
- Vou. A massa da macaxeira esta pronta, o Salviano, o Ludimilo e a namorada estão para chegar.
- Minha filha já estou a 45 minutos e 37,38,39 segundos nesta porcaria de fila. O fulano de trás de mim me disse isso não sei se acredito, mas ele me disse que o governo vai baixar um decreto lei dizendo que os índios vão poder comprar ações na bolsa.
- Mas pai, para que o senhor quereria querer ações na bolsa? O senhor mesmo diz que recebe uma miséria.
- Isso porque teus filhos são uns vagabundos. Menos o Rafaelo que me ajuda a preparar as garrafadas, ele mesmo sai para vender. Eu sei que ele me rouba,que vende por um preço mais alto, mas mesmo assim é um rendimento extra. Quem sabe?
- Pai, pare de falar assim dos meninos, eles gostam muito de ti, eles não tem culpa se na aldeia não tem mais trabalho além de participar uma vez por emana como atores nos rituais turísticos. Senhor bem sabe que com o que recebemos de subsidio do governo, o nosso cacique. Teu amigo. Leva mais da metade para a conta dele. Isso que o senhor devia falar devia brigar.
- Concordo contigo. Eu acho que essa virose me pegou. Ainda pouco peguei uma tosse. Olha a fila ta andando, vou desligar.
Mariina retorna ao seu afazer na cozinha da Taba.
- Faz isso sempre, quando não quer falar. Desliga. Pai, pai o senhor as vezes é irritante.
No banco, Nelson anda mais 6 passos na fila.
- Pronto faltam umas, 14, não, comigo 13 pessoas. Mas já estou dentro do banco, recebo, de noite vou levar a Analika. Será que o bar da estrada ta aberto? O Kanari sabe. Vou ligar para ele.
Kanari dorme no sofá durante a performance do casal da Albânia. O celular toca. Ele acorda sobressaltado, olha para tela, o casal da Albania é eliminado por causa de uma câimbra na panturrilha esquerda do competidor masculino. Surge um casal Coreano plantando bananeira na cama.
- Escuta, tenho um encontro hoje a noite com a Analika. Tu já saíste com ela. Me diz como é que é?
- Nelson, acessa ai no teu celular o canal pornô. Isso nunca vi. Plantando bananeira. E quem disse que japonês tem pinto pequeno.
Nelson tecla o código assiste um pouco e responde.
- Não é japonês seu burro, é coreano. E com certeza é uma prótese peniana, mas repara só a abertura da mulher, deu para ver o fígado.
- Esses vão ganhar. O que um velho como tu queres com a Analika?
- Velho é teu passado, posso estar gasto pelo uso, mas ainda garanto bem.
- Com tantos remédios de hoje. Olha, leva a Analika para o Potty, paga um bom jantar,deixa ela falar dos tempos em que ganhou o Miss indígena. Vai com carinho com ela seu velho safado. Ela é uma das últimas da nossa época que esta na ativa.
A fila anda. Nelson chega mais perto do guichê.
- Escuta, me ouve com atenção. Tu sabes que os espíritos me deixaram e eu já passei o maracá para aquele outro.
- E o que ele fez? Foi embora da aldeia. Sabes que ele tem uma tenda espiritual lá num bairro de Belém?
- Sei, não é dele que quero falar, deixa o safado pra lá. Ouve. Ontem de noite eu sonhei com eles. Eles vieram até a mim.
- Quem já?
- Os meus guias: Pena Branca, Pena amarela e Pena Verde.
- E o que eles falaram para ti?
- Pois é ainda não entendi direito, foi uma mensagem. Ouve só lembro bem dessa parte “O teu mundo, os teus entes, parentes. A Tua tribo, teus mitos, tuas lendas e todos os teus antepassados em ti vão ser esquecidos, Vais mudar de jeito e a tua maneira será outra. Farás parte de nós, nada mais terá importância.”
- Só isso? Tu não lembras mais de nada?Eles estão te chamando.
- Sera? Tinha mas, mais ai acordei, era umas 4 da madrugada, vi bem os vultos deles bem do meu lado, senti o cheiro de erva queimada.Ai deu uma saudade de não sei o que? Que tu achas? Espera ai, estou na boca do caixa já vou receber, fica na linha. Quero que tu me digas tua opinião.
Um barulho ensurdecedor assusta todas as pessoas no interior do banco Panamazônico. Os rostos se voltam para entrada. Quatro homens armados e mascarados explodiram a porta de segurança e adentraram o banco. Um segurança reage atirando nos bandidos que respondem. Nelson e mais 11 pessoas idosas que estavam na fila foram atingidas e morreram instantaneamente.
Na sua sala, no sofá, Kanari assustado com o barulho vindo do celular do amigo grita.
- Que é isso Nelson? São os espiritos? Nelson? Nelson?








