Ah! Esses peixinhos.
Agosto de 2009, dia 24.Segunda feira. Doze horas. Residência, conjunto habitacional do bairro do Paracuri, distrito de Icoaraci, área metropolitana da cidade de Belém. Estado do Pará. Brasil.
Almoçando uma quentinha. Galinha frita, porção de arroz branco, feijão e um saquinho da farinha. Rodinelson relembra um fato estranho e acontecido no dia anterior, domingo. Distraído e penseroso, ele esta sentado na cadeira da mesa da cozinha, olhando para um pequeno aquário de vidro cheio de gupys, acara bandeira e cardinais nadando entre um mini castelo de pedra, um mini barco pirata de PVC e algumas plantas algas de plástico. Absorto ele come devagar, pensando também no pagamento do conserto da TV que terá de fazer hoje e no seu trabalho de segurança de supermercado e entre uma garfada e outra ele exclama.
- Há! Esses peixinhos, parecem tão assim, assim, tão menorzinhos, coloridos, mas ontem eu vi vocês,pois é, porque fiz isso? Mergulhei atrás de uma mulher. Oh! Morena por que tu foste fazer isso comigo? Tu era um peixão, mesmo!
No sábado após o trabalho ele foi a festa na sede do Breganaiti. Localizado na Travessa Berredos. Lá ele conheceu aquela que ele achava, seria sua namorada oficial, a do mês de setembro.
Vestida de azul. Dirce Kleidis, linda, cheirando a Avon, morena índia. Baixinha, 1:64, meio gordinha, cabelos lisos e pretos, olhos castanhos úmidos. Fartos seios e avantajada bunda.. Rodinelson em pé no canto do salão, bateu o olho e ficou tarado. Foi lá no grupo de mulheres onde a morena estava e a convidou para dançar. Brega, calipso, merengue e para terminar um pagode “Universitário”.
Cansaram e foram ao bar. Ele na vodka Roscofi com duas pedras (assim ele faz\questão de pedir)
- Me dá uma russa com duas, duas pedras de gelo.
Ela ficou bebendo uma latinha de cerveja. Como ela veio sozinha, tinha de voltar cedo, antes do amanhecer, não quis que ele a levasse em casa, a patroa disse ela, podia ver. E eles combinaram de se encontrar no domingo a tarde, as 17 horas na Ponta do Cruzeiro, um local turístico localizado na esquina da 1º rua. Siqueira Mendes com a Travessa do Cruzeiro, orla marítima de Icoaraci.
Domingo de verão amazônico, luminosamente quente, vento forte, sem nuvens no céu azul. Um cargueiro de bandeira Africana encontra-se ancorado lá no meio da baia do Guajará.
De mãos dadas eles passearam, rodearam o cruzeiro que da o nome ao local, andaram pela pracinha, seguiram pela murada olhando o mar, a maré cheia, ondas fortes batendo no muro de proteção. Conversaram bastante. Cada um contou sua história. Ambos mentiram descaradamente sobre si, e por isso logo surgiu o tesão a paixão. Desceram pela escadaria de tijolos e foram continuar o namoro pela área de passeio que fica rente a maré. As ondas batiam, batiam e ele contente com a nova conquista,olhava com afeta e ria quando uma nuvem de água respingava, molhando eles.
A claridade do final da tarde ficou rubra, o sol vermelho laranja começou a descer no horizonte, eles, contentes um com o outro, passaram por vários casais que estavam igualmente namorando. Estavam procurando um banco para sentar e apreciar o por do sol.
Passaram por um pipoqueiro. Ela quis pipoca caramelizada, ele não. Muito sal e manteiga.
- É manteiga não é moço? Não é margarina não?
Mais adiante, apressaram o passo e conseguiram achar vazio um banco de cimento pintado próximo a uma arvore na beirada do passeio. Passaram por uma pessoa solitária, um homem com indefinida idade, trajando boné, camiseta, bermuda e tênis branco, ele estava na encostado no tronco da arvore, uma mangueira. Ao passarem por ele, Rodinelson, sentiu, mais que viu, algo de estranho, sua namorada, ele percebeu, o corpo tremeu. Foram adiante e sentaram. Conversa vai, conversa vem, carinhos, abraços, um apaixonado beijo. A pipoca deu sede, ele ofereceu e ela quis tomar no canudinho, um coco gelado. Ele levanta e vai buscar, ao passar pelo homem de branco. Sentiu de novo e agora viu. O cara tinha um olhar fixo na sua namorada e ele pensou “ Desse jeito esse ai vai acabar levando uma porrada” Mas como o amor releva determinadas situações, ele seguiu em frente, subiu a escada para buscar duas águas de coco gelado.
Na barraca de coco a fila era grande e ele esperou uns 15 minutos até conseguir comprar o coco gelado. Ao voltar, ainda na parte de cima da escadaria ele vê sua namorada conversando com o homem de branco. Pensou “Esse ai vai pegar porrada mesmo”
Quando estava no penúltimo degrau, assim de repente ele vê o homem de branco segurar a sua namorada, e juntos mergulharem na maré alta. Ele corre com os dois cocos nas mãos. Olha para água esperando eles boiarem. Nada. Olha para cima. Na murada ele percebe que varias pessoas estão acompanhando o acontecido. Ele larga os cocos e pula na água, vai nadando procurando por eles. Nesta área próxima a beirada existe um aglomerado de pedras e depois um declive abruto formando um pequeno abismo marinho. Submergido ele procura a namorada e nada vê. Emerge,puxa mais ar e mergulha mais fundo na água barrenta. Em flash, ele percebe que submergindo mais a fundo a água agora estava transparente e ao seu redor, mínimos peixinhos coloridos flutuavam mais que nadavam ao seu redor.
Ele tinha entrado em outro mundo.Liquido e diferente.
E nada da morena. Novamente sem ar ele sobe, sobe. Emergiu. Porém a orla marítima de Icoaraci estava distante. Onde ele foi parar? Olhou para trás ele viu o cargueiro, estava tão próximo que viu o nome “ Serere . Mais desesperado ainda ele mergulha de novo e vai mais fundo ainda. Em flash ele vê, pensa rapidamente.
- Ah! Esses peixinhos, essa água transparente, isso não devia estar aqui. Nunca vi isso.
E ele nada. E nada!. O fôlego foi embora, o ar também, deu câimbras nas panturrilhas. Ele estava se afogando e a última coisa que viu foi, um cardume com centenas, milhares de peixinhos coloridos e entre eles um boto acinzentado, um (ele jura para si) tinha o rosto da sua namorada. Veio em sua direção e com o focinho empurrava o corpo dele para cima. Em um instante de consciência ele pensa “ela esta me ajudando, mas ela é peixe? E onde esta o outro, o boto que roubou minha namorada?
Rodinelson boiou, dois pescadores que foram chamados pelas pessoas que assistiram a cena e pediram socorro. Resgataram e o içaram ao barco, levando ao trapiche.
Deitado no chão, Rodinelson acordou vomitando e a primeira coisa que ele pergunta é se eles viram sua namorada. Ninguém viu. Perguntou se viram ela mergulhar com um homem de branco. Viram.
Ao seu lado, um senhor o pescador mais velho do barco, com pena do rapaz, oferece uma toalha seca e pede para ele contar o ocorrido.
Triste ele conta.
O pescador diz.
– Tiveste muita sorte foi é de voltar vivo, dá graças a Nossa Senhora de Nazaré, porque mesmo eu que já tenho tantas idades, mesmo eu só ouvi falar disto que tu viveste agora. Tu entraste foi numa, uma encantaria e se bem me lembro das histórias dos antigos, ali, naquela ponta é a encantaria da Josefa pescadora.
- Mas e a morena? Eu conheci ela ontem, no Breganaiti, bebi, dancei com ela. Estávamos juntos, namorando numa boa.
- E ai? E tu acha que todo boto é homem. Era um boto-fêmea, rapaz. Tu não devias eras ter mergulhado atrás dela, deixava ela ir. E olha. Se, se ela te salvou e não te levou pro mundo dela,quem sabe o porque. Talves foi porque ela te quis muito. Te preocupa com isso porque ela, gostou dela? Pois é, ela volta, um dia ela vem te buscar.
Sentado na mesa da cozinha, olhando seco para o aquário, espantado com isso ele diz para o aquário.
- Ah peixinhos não deixa ela vir me buscar não.








