Minha Nossa Senhora.
Estrada da Serraria, município de Marituba, área metropolitana da cidade de Belém, estado do Pará. 19 horas, quarta feira 8 de outubro de 2009. Uma fila de duas pessoas está em pé à frente da casa de numero 23. Na parede do corredor externo da direita um rapaz indígena encostado na parede do brinca com um jogo no celular. Seguindo mais adiante se chega ao largo, longo, gramado e arborizado quintal, uma pequena floresta, bem no meio uma maloca aberta sem paredes, apenas com o teto de palha. Local onde Acaciana sentada em um sofá atende as consultas; ao seu lado uma senhora de cabelos acaju, sentada na cadeira explica seu problema e faz o pedido.
- Eu já não sei mais o que fazer. Fiz promessa para Nossa Senhora. Fiz trabalho no terreiro com o Painoé. Mãe Ciana, só a senhora poderá me ajudar. Ajude-me a trazer ele de volta. A senhora pode cobrar o que quiser.
- Eu me chamo Acaciana, mão Ciana não existe mais. Olhe, ouça, me escute, eu não faço mais este tipo de serviço, já lhe expliquei e por favor não faça mais este tipo de promessa a Nossa Senhora, respeite, ela não gosta. Teu problema não precisa de minha visão. Tu estas sofrendo por que queres, tu já tens 45 anos. Quiseste um homem de 25 e durante um tempo tiveste não tiveste? Agora passou. Esse homem não presta. Esquece ele.
- Mas ele ia abrir um negocio uma firma.
-Homem direito não usa dinheiro de mulher. Escute-me, aceite isso, ouça, eu não estou tendo uma visão boa de ti, nada de bom veio dele para ti, isso não é amor, não houve carinho, não teve afeto, ele te usou ate obter o que quis. Ele foi embora, ele roubou teu dinheiro e não tem mandinga, não tem trabalho de macumba ou vidência que de jeito
- Ta errado, eu achava melhor quando tu pegava santo. Tu entendia das coisas, agora não,viraste carola, imagina só uma macumbeira se fazendo de santa. Se tu não queres me ajudar, não me atrapalha.
-Não adianta ficar com raiva, a verdade dói, mas tem de ser dita, tu precisas gostar mais de ti, aceita isso. Tu tens de te proteger. Olha faz o seguinte. Troca a fechadura da porta do teu apartamento porque assim que acabar o dinheiro ele vai te procurar de novo. Ele não presta, ouça o que te digo, nada bom pode provir de um homem deste tipo.
- Mas, mas.
- Não tem mais nem menos, toma nota do telefone da delegacia da mulher, se ele aparecer de novo. Dá queixa. Protege tua vida, agora podes ir. A consulta acabou. Chama lá o Alirio.
Da maloca, antigo terreiro, Acaciana mandou tirar as paredes de tabuas e com isso tem uma visão de 360º do amplo quintal gramado, repleto de arvores frutíferas, mangueiras e açaizeiros. Acaciana, hoje em dia é uma espécie de vidente convertida a religião católica devido a uma graça obtida. Porém mesmo assim ela ainda continua vendo e conversando com os índios, com os curupiras, Iaras e botos, com os pretos velhos, caboclos, caboclas e animais, pássaros encantados da floresta que visitam seu quintal.
Ela ajeita-se nos travesseiros do sofá, suspira de enfado pelas repetições dos problemas comuns e motivos banais que as pessoas trazem a ela. Calma Acaciana, as pessoas tem medo de mudar, tem medo da verdade, falta sensatez, falta raciocínio, principalmente autocrítica. Minha nossa Senhora. A Senhora tem certeza que era isso que eu devia estar fazendo? Elas querem tratar o mal com o mau com o mal. Sabe até hoje eu digo e tenho certeza, os encantados não tem culpa do lhe é pedido para eles, eles não são ruins o ser humano é que é péssimo. Ouça, hoje é um dia em que sinto uma angustia, essas pessoas que estão vindo a mim, sinto muito mas eu não vejo, não sinto nada por elas, apenas um cansaço. Olhe minha nossa senhora me desculpe, eu cumpro vou sempre cumprir a promessa que lhe fiz, mas que esse é um oficio ingrato, é. Sabe fico lembrando que quando era mãe de santo, dançava, fumava, bebia, recebia as caboclas, os caboclos e os encantados de todos os tipos. Era famosa, respeitada e rica. Ali eu sentia estar participando, fazendo algo pelas pessoas. Ali eu era respeitada. Hoje não. Precisa ouvir o que falam de mim. Desculpe ta, vou já me recuperar e tirar esses pensamentos noviços da cabeça. Ela ajeita de novo os travesseiros e relembra que a cinco anos atrás foi diagnosticada com um câncer no útero e que já havia metástase. O médico que a tratou o doutor Silvanor foi honesto e respondendo a uma pergunta dela, disse que no caso dela a probabilidade de recuperação era difícil, estava em 20 a trinta por cento. E um dia antes de morrer , isto ela sabia, afirma convicta, ela teve um sonho uma visão esplendorosa de dezenas de anjinhos correndo com os pequeninos curupiras em uma estrada alada dentro de uma nuvem de vapor brilhante pairando em um céu bordado de ouro, brilhantes, safiras, rubis. Onde um vento oloroso a sacudia e fazia flutuar, bailando com iaras, botos e índios. O céu era o sol, era a lua, era a arvore, hera, plantas e animais. E no mais intimo do ser ela sentiu-se curada quando lá no fim, na linha púrpura do horizonte, em uma pequena e simples casa, uma linda senhora de rosto as vezes branco, as vezes negro, as vezes índio, profundamente humano com olhos bondosos que chegaram bem próximos aos dela e disseram.
- Pediste a mim graça divina. Terás. Em tua vida foste ruim, consigo e com os outros. Pediste-me um milagre. Dou-te. Vivera porem de outra maneira, tens um dom e usaras para ver o bem que cada pessoa tem.
Deste sonho em diante a vida de Acaciana mudou, para o espanto de todos, ela fechou o terreiro e como devota de Maria, muita gente ela tratou, viu e disse em alto bom som o que havia de bom nelas, porém a verdade incomoda e as pessoas estão acostumadas com o ruim de suas vidas, estão viciadas em suas dores e desamores que assim que ouviram se ressentiram, ficaram com seus medos e a maldade corre a boca pequena, falando coisas ruins, comentando que ela vê coisas que não existem, que vê pelo lado negativo, que inventa e do que ela diz só acontece o pior; dizem alguns que as vidências dela se tornaram catastróficas, que ela perdeu seu dom e só tem visões distorcidas.
Acordando de um pequeno cochilo Acaciana pergunta ao seu auxiliar que esta em pé a frente dela.
- Alirio meu filho, vem cá, liga as luzes do quintal, já é noite, liga o ventilador do teto que os mosquitos estão zumbindo no ouvido. Escuta, quantas pessoas tem ainda?
- Têm duas pessoas na fila, a dona Elizabeth e o doutor Silvanor que é o próximo..
- Diz para ele entrar, traz uma garrafa térmica com chá de capim marino, traz também aquelas xícaras de porcelana chinesa.
O doutor Silvanor chega, ignora a cadeira e senta ao seu lado no sofá, aceita uma xícara de chá. Acaciana fica mais contente com a sua presença,sorve devagar o chá e pergunta.
- Que tal? Você fez o que a minha visão disse?
O doutor Silvanor coloca a xícara no pires da mesa de centro e responde.
- Fiz, chamei, praticamente obriguei meu filho e vir em casa ontem a noite, criei coragem e falei tudo o que me veio a cabeça, expliquei o que se passou comigo depois da morte da mãe dele, pedi desculpa para ele. Chorei, pedi perdão por ter negligenciado a criação, a educação dele.
- E ele?
- Acho que foi a maior surpresa que ele já teve na vida, pedi para ele relatar como se sentiu com tudo isso. Incrível Acaciana, foi exatamente como você viu. Ele falou, pos para fora toda a magoa, rancor por ter tido um pai distante que vivia somente para o trabalho e esquecia que tinha filho.
- Ele perdoou?
- Graças a deus estamos de bem agora, ele quer que seu seja padrinho da filha dele. Foi emocionante, a gente ficou abraçado, falando e chorando. Acaciana, eu senti o espírito dela, senti também que ela se foi, foi feliz, iluminada. Foi tudo bem obrigado, ahora me conte de você, fez o ultimo exame.
- Fiz, deu negativo, estou livre de vez do câncer e no domingo vou estar com a minha mortalha acompanhando a romaria de nossa senhora de Nazaré.
- Eu também vou acompanhar o círio de Nazaré, e como vai seu trabalho?
-Não vai bem, as pessoas estão deixando de vir me consultar. Algumas, não muitas das pessoas que vinham ao meu terreiro querendo que eu fizesse despachos, coisas ruins. Essas pessoas não aceitaram minha mudança, não aceitam ouvir as vidências que contem certas verdades que as incomodam e por isso anda espalhando mentiras sobre mim.
- Mas eu acredito, e vi, tratei e você e não tinha mais chance de viver, era questão de horas, e em questão de dias você ficou curada.
- Graças a minha nossa senhora, todo dia agradeço, não esmoreço não doutor, vou continuar com meu trabalho que ela me pediu para fazer. Faço isso como maior gosto e orgulho, no segundo domingo de outubro é um dia sagrado para mim, dia em que mais de dois milhões de habitantes saem a rua para homenagear a santa, a mais linda romaria. Sabe doutor, o bem que ela me fez foi tanto bom que enquanto estiver viva é esse bem que farei a aqueles que quiserem também.








