Armazônia

Município do Acara, Belém, estado do Pará.
Um mês atrás uma área foi invadida pelos sem terras na fazenda El Dourado. São 221 famílias morando em barracas de lona preta. Em uma barraca maior uma reunião acontece. Dentro um intenso calor, suor humano de dezenas de pessoas ouvindo concentradas o discurso do líder do movimento.
- Hoje a noite vamos fincar raízes nesta terra e expulsar esses latifundiários. Vamos lutar. Lutar.
Gritos, facas, terçados erguidos. Urras brados e tiros. A terra é nossa. A terra é nossa. Um conflito se configura.
O confronto dos sem terras contra os fazendeiros esta prestes a começar.
Enquanto isso no pátio da fazenda El Dourado, homens armados recebem ordens do fazendeiro.
- Tenho informações de que eles vão atacar hoje a noite. Quero dois grupos, o primeiro vai ficar aqui na sede protegendo os galpões e currais. O segundo vai percorrer o pasto rente a estrada que é por onde eles vão entrar.

10 km adiante, surgindo do alto de um céu escurecido de fumaça, um pequeno avião monomotor desce no campo de pouso da tribo Uarani. Da cabine do avião o piloto informa que veio buscar provisões para o cacique que ficou na El Dourado e que de lá vai conseguir proteger a tribo mas que é melhor as famílias pegarem suas coisas e irem para a fazenda Jaguarité e acamparem nos galpões de armazenamentos de grãos. Dois empregados do cacique trazem 18 sacolas de mantimentos, 2 caixas de uísque e 6 grandes caixas de isopor cheias de gelo e cerveja. Abastecido o avião alça vôo e vai embora.
Com a certeza do conflito, os índios reúnem suas famílias, colocam em seus carros mobílias, roupas, televisões, rádios, computadores e rumam em caravana pela rodovia PA 150. Antes de ir o pajé seu Benedito chama o guerreiro Uaranâ e o leva a sua maloca.
- Tenho uma incumbência que só tu podes cumprir. Esses brancos estão em luta e a nossa floresta eles querem queimar. Nosso cacique que devia estar aqui fugiu. Tu não falas nada para o pastor que entender nem aceitar vai.
Tu largas um pouco tua mulher que ela esta segura com os pais. De alguma forma temos de proteger nossa tribo e para isso vamos precisar da ajuda dos encantados, por isso tu vais pelo terreiro dos Akras, tu vai buscar ajuda da tribo de Menakran. Só ele vai poder guerrear.
Uaranâ – Pajé essa tribo não existe mais. Pode pedir a outro? Seu Benedito, eu e a Rita dias atrás casamos. É nossa lua de mel e esse terreiro foi tantas vezes queimado que ficou assoreado, mas parece um deserto e dizem é mal assombrado.
Seu Benedito – Ali tinha uma floresta sagrada, ali morava os mais bravos guerreiros, nos somos descendentes dele. Antes dos padres, da gripe, da FUNAI, do fogo, dos grileiros acabarem com eles. Menakran era o chefe de todos nós,
Uaranâ – Mas nessa terra até o dono é fantasma, nunca ninguém viu ele e é um local todo tisnado, todo queimado, nada nasce ali, ninguém vai por lá. Porque a gente vai se meter? A briga é deles, os sem terras, os fazendeiros. Pobre, rico, branco tudo é mesma coisa.
Seu Benedito - Se o fazendeiro perder sua terra tu achas que eles vão deixar a gente em paz?
- E como eu acho Menakran?
- Tu seques pela nossa plantaçã mandioca, passa pelo palmeiral do Cacique, vai rumo sul, logo tu vai ver o terreno queimado com o chão cheio de dunas de folhas secas. Vai pelo leito seco do igarapé até onde ele dobra e daí segue pela floresta das arvores carvão. Agora, cuidado que os Akras vão aparecer pelo caminho. Eles surgem na boca da noite. Assim que tu veres um, tu tens de pensar em uma coisa tão forte, tão forte que não deixe eles levarem a tua alma, tu não pode deixar nenhum deles entrar na tua cabeça. Tu tens de lembrar bem disto, os Akras são formas de antigos pensamentos, o teu medo é alimento deles. Tu continuas, segues andando até achar a sumaumeira carbonizada e fica andando ao redor das raízes dela e grita, com toda tua força diz que vieste em meu nome, diz que estamos precisando dele e que se nos morremos nunca mais ninguém vai pronunciar o nome e nem dizer aos outros a história deles. Agora presta atenção. Menakran é um cacique brabo. Olha bem a forma em que ele vai aparecer. A cor tem de ser vermelha. Ele é fogo. Uaranâ com o pensamento em sua amada Rita segue rumo a tribo do Menakran.

Os sem terras queimara toda a plantação do fazendeiro. Colocaram troncos de arvores na estrada, a caravana dos índios tentam seguir em frente mas os sem terras impedem a passagem.

As folhas secas estalam e os pés afundam nas dunas de areia. A lua, ora surge iluminando em foco uma paisagem degradada e aviltante. Deidades percebem a presença de um vivente em seu território, um zum zum zum de vozes no vento sussurradas circulam em volta de Uaranã que sentem todo seu corpo arrepiar.

Na estrada grupos de fazendeiros atiram e os sem terras atacam usando táticas de guerrilhas revidam.
Sozinho, andando firme dentro da noite queimada, Uaranã pisando forte nas folhas secas, nos galhos, troncos ouve mais uma vez as vozes do vento, dessa vez é o pajé dizendo.
- Mais rápido Uaranã, eles entraram na fazenda, eles pegaram a gente na estrada. Rápido.
O ar venta cheiro de fumaça. Uaranâ atravessa o leito seco do igarapé. Nuvens abrem e fecham a luminosidade da lua agora avermelhada. A frente, atrás e a seu lado o igarapé enche de águas fosforescentes e nadando dentro dela translúcidas miragens de peixes. Mais acima surge, aviva uma floresta cheia de pássaros luzes. Fascinado e curioso Uaranã caminha mais devagar observando observando essa nova paisagem. .Ele ri e diz para si
- Mas quando que isso me assusta. Mas medo me deu aquele filme “Sexta feira 13”
Figuras emanam da orla de seus olhos. Ilusões semitransparentes oscilam, agitam de um lado ao outro.
Ele retesa os músculos, fecha os olhos e procura uma imagem para combater os Akras. Ele pensa na bunda de sua amada Rita e, seu estado emocional muda e com isso ele chega ao final do igarapé vazio.
Alguns sem terras ameaçam os índios, eles querem os objetos que estão na traseira dos carros.
Discussão, brigas. Tiros
Uaranã agora atravessa o terreno das arvores queimadas. Sombras sinuosas serpenteiam rente aos seus olhos. Uaranã é claro, não tem medo do escuro. No pensamento ele diz.
- Medo eu tenho é de gente viva. Disso ai. Hum Vão assustar outros, um bando de visagens mixurucas.
Em outra coisa agradável ele pensa.
- Há. Rita,quando a gente tomar banho juntos isso vou te contar tim por tim tim. Vamos rir muito.
Um flash de lua ilumina uma larga e altíssima arvore contra o céu noturno.
- Aquela ali deve ser a sumaumeira carbonizada, é lá que eu vou gritar, vou chamar Menakran.
Mas antes de ele chegar, uma ventania trouxe as vozes do vento, veio trazendo tristes chamamentos. Do alto de um galho carvão um pássaro de Edgar Allan Poe grita - . Akra Akra Akra e um eco papagaio invade de surpresa o espírito de Uaranâ. Ele hesita. Uns bandos de miragens periquitos pousam em seu cérebro gritando Akra Akra Akra.
Distante, próximo o medo assola a terra, o coração. Tiros, gritos, um exercito de assombrosa almas mortas desesperadas chegam em grupos e querem entrar nele. Para dentro ele recua. Força ele vai perdendo. Sua amada Rita, desvanece em meio a ódios e profundos medos. O vento miragem faz de cada grito uma alma verde e fluorescente que vão chispando olhos adentrando alma. Uaranâ cai, seus olhos cheios de folhas secas fecham, seu corpo treme e esfria ao contato do fogo fátuo. Akras iridescentes, malevolentes sugam sua energia vital.
Uma luz branca surge de dentro da raiz da sumaumeira carbonizada. Vivo ainda Uaranâ alucina. Folhas, galhos, gado, curral. Estrada, carros, pastos. Tudo queimado. Uma forma vermelha translúcida grita para os Akras e para as almas dos mortos do conflito. Elas recuam, saindo co corpo de Menakran.
Avermelhada de Menakran que grita mais alto e os espíritos benéficos, encantados do bem saem da luz branca e vão ao local do conflito para encantar aqueles que quiserem morar na encantaria. Uaranã em um último resquício sentiu mais que ouviu, era seu Benedito – Obrigado, tu conseguiu, agora nos vamos fazer parte da encantaria tribo dele.
Uaranã não era mais gente, e como ente, finalmente pode reencontrar sua amada Rita e se tornar parte de uma história contada apenas por aqueles poucos que sobraram que fugiram e se dispersaram pela cidade.

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