Um Natal Encantado
Bem próximo ao lago Água Preta onde existe o que os moradores mais antigos chamam de “Mãe da floresta” uma centenária arvore “Sumaumeira” com cerca de 55 metros de altura e 12 metros de largura, alcançando 20, 25 metros se contarmos com suas raízes, as “sapopemas” que se erguem do tronco e atravessam parte do quintal da casa da Dona Juju, uma casa de madeira de apenas um cômodo e telhado de lona plástica preta. Seu interior é pobre, cama, guarda roupa, Tevê.
Em cima da mesa, uma arvore de natal com bolas vermelhas e um jogo de luzes pisca-pisca que toca uma dididi-dididi música Parecendo mosquito cantando musica natalina.
Sua moradora, Dona Juju esta em pé frente a pia lavando roupa.
No fogão uma galinha assando em lugar do peru de natal que ela vai levar para a ceia do clube da 3° idade. Na pia ao escovar mais forte a perna de uma calça jeans, ela sente uma dor no peito. Ela recua, puxa a respiração, anda devagar pela sala-quarto-cozinha e liga a televisão. Cenas de uma rebelião de presos. Ela muda de canal.O interior de uma cela. Ela muda de canal. Um pastor exorcizando um seus próprios demônios. Ela muda de canal. Novas cenas da rebelião. Desliga a TV. Na sua mente, em cenas passadas, ela lembra do dia que o filho foi preso e com raiva, ela lembra também da filha. Suspirando ela diz.
- Quem dera meu deus eles pudessem vir passar o natal aqui comigo.
Respirando mais forte, bem melhor, dona Juju retorna a pia, esfrega, lava, esfrega, lava e chora. lembrando do filho que foi preso e condenado.
- Coitado do meu filho.
Com raiva lembra da filha que depois de arranjar um bom emprego não mais veio visitar e com isso ela nunca mais pode ir visitar o filho na penitenciaria.
- Ele ia comer toda essa galinha. Esta do jeito que ele mais gosta.
Pensa de novo na filha e com mais raiva resmunga.
- É minha filha, quando Everson pagava tua universidade, tu não perguntava de onde vinha o dinheiro. Agora que cresceu na vida nem me visitar vem mais. Ingrata.
Ela sente uma outra pontada, uma fisgada forte no coração. Dona Juju com o rosto vincado de dor e de seus 79 anos de dura existência desce devagar os degraus da porta e vai ao quintal carregando com dificuldade o cesto cheio de roupa molhada, e com o braço esquerdo formigando ela vai estendendo peça por peça nas cordas do varal preso entre a arvore e a parede da casa.
Nenhum vento, nenhuma nuvem. O sol a pino, 35° de calor, quente demais, o maltratado quintal com mato e poças de lama e lixo exalam um cheiro podre de mangue.
Nenhum vento, nenhuma nuvem. O sol a pino, 35° de calor, quente demais, o maltratado quintal com mato e poças de lama e lixo exalam um cheiro podre de mangue.
Pousado em um galho mais baixo da arvore, um papagaio chama a atenção dela.
- Loro, dá o pé Loro. Lourinho, lourinho. Dá o pé Loro.
Dona Juju levanta a cabeça, tira o óculo, limpa o suor e as lágrimas e fica olhando para as folhas, para o galho onde esta o verde reluzente papagaio de cabeça amarelo vermelha. Ela sente uma tontura e tenta apoiar-se na raiz da arvore, larga o cesto e cai no chão.
Segundos, minutos e a vida dela esta se esvaindo no vazio.
Segundos, minutos e a vida dela esta se esvaindo no vazio.
Batendo as asas o papagaio emite um grito, um assovio estridente, alça vôo e pousa perto dela.
- Loro, lorinho, acorda Dona Juju, acorda que vim te ajudar. Dona Juju, jujujuju..
Dona Juju abre os olhos, lágrimas sujas de terra, vira o rosto na direção dele e diz.
Papagaio, teu nome é loro é? Me ajuda, estou no fim loro. Me ajuda Loro. Me ajuda.
O papagaio caminha com um jeito engraçado para bem perto do rosto dela.
- Loro vai ajudar, olha lá no fundo da raiz, na beira do chão, vê aquele ovo branco no tronco, vai virar um ovo luz, ele vai crescer e ai tu vais entrar por lá. Mas tem de entrar ainda viva.
- Não se consigo loro. Eu sou devota de Nossa Senhora, sou cristã.
- Mas essa é a arvore mãe. É ela, é por ela, é de dentro dela que o mundo nasce e renasce, ali tem os sonhos. Vem Dona Juju, levanta, tens de levantar, teu destino é morar conosco, vais ficar com a gente e entre nós vais viver. Vem comigo.
- Não se consigo loro. Eu sou devota de Nossa Senhora, sou cristã.
- Mas essa é a arvore mãe. É ela, é por ela, é de dentro dela que o mundo nasce e renasce, ali tem os sonhos. Vem Dona Juju, levanta, tens de levantar, teu destino é morar conosco, vais ficar com a gente e entre nós vais viver. Vem comigo.
Com um jeito engraçado o papagaio vai andando, bamboleando na frente. Tremendo, dona Juju ergue-se lentamente, dor, amor, tudo já passou, ficou para tras. O ovo luz vira uma porta iluminada. Dentro um caminho, uma aldeia, uma iluminada e ventilada floresta verdejante. Dona Juju vê e fica espantada, arregala os olhos e exclama.
- Minha nossa senhora mãe de deus, mas o que é que é isso? Estou morta? Estou viva?
O papagaio a espera na entrada e diz.
- Entra Dona Juju,Juju, Juju. Entra que nos gostamos de ti, tu vens lutando forte tua vida inteira. Agora é hora de mudar, de se encantar. Se tu queres vir morar com a gente,vem, mas tem de estar viva ainda. Vem logo.
Sim, sim ela diz. Dona Juju não tem mais dor, um sentimento de afeto e amor ela irradia e sentindo que esta diante de algo maior e melhor daquilo que viveu, ajeita a saia, sacode a
poeira dos cabelos e rosto, pisa forte e entra renovada e alegre na encantaria do Povo da Floresta, e de lá de dentro com o papagaio em seu ombro ela vê o portal de luz ir fechando. Lá fora, no chão de terra batida ficou apenas seu cansado e velho corpo.
Sim, sim ela diz. Dona Juju não tem mais dor, um sentimento de afeto e amor ela irradia e sentindo que esta diante de algo maior e melhor daquilo que viveu, ajeita a saia, sacode a
poeira dos cabelos e rosto, pisa forte e entra renovada e alegre na encantaria do Povo da Floresta, e de lá de dentro com o papagaio em seu ombro ela vê o portal de luz ir fechando. Lá fora, no chão de terra batida ficou apenas seu cansado e velho corpo.








