Esses malditos encantados
No palanque de madeira da igreja do derradeiro dia, O pastor Aramal grita ao microfone de lapela e com os dois braços feitos garra, agarra por trás, colando virilmente seu corpo ao da fiel seguidora.
- Fora demônios. O habitual exorcismo dominical esta acontecendo para uma platéia cheia de fieis. No palanque, possuída, endemoninhada, excitada a evangélica berra palavras ininteligíveis, com um empurrão no pastor ela consegue se soltar e com um sorriso erótico, neurótico, com os negros cabelos desarrumados. Fitando bem os fieis e o pastor, em um gesto lascivo ela puxa rasga a saia e a blusa e joga na cara do pastor que visivelmente suado, agitado, ansioso por mais contato “religioso” torce o braço esquerdo. A evangélica tenta novamente soltar-se, fazendo gestos obscenos, pulando e gritando com o maior prazer.
A platéia sentada nas cadeiras brancas de plástico vibra com fervor; o pastor pede mais oração e a platéia assente percebe, apóia, cantando, orando purgando assim suas mazelas. Num teatral afã de completar seu trabalho, o pastor novamente agarra a evangélica seminua e com ímpeto e veemente desejo a sacode com força.
- Fora demônios. Saiam espíritos selvagens. Vão embora caboclos do inferno. Retornem para dentro da mata, suas entidades malignas. Saiam. Mulher tu nunca mais frequentaras terreiro de macumba, tu nunca mais tomaras nenhum chazinho de ervas oferecida por esses malditos encantados.
Ao sentir no corpo a força de tais palavras chega ao acme de sua possessão, a entidade sabendo sua hora, goza e vai embora. A evangélica desaba no chão, desmaiada.
A platéia lotada da pequena igreja do derradeiro dia, emocionada com o clímax do exorcismo dominical, aplaude entusiasticamente o show do pastor que com sua habitual eficiência desce para platéia e recebe os comprimentos pelo culto e aproveitando tal momento ele solicita o as contribuições de sempre.
Na saída da igreja, invisíveis entidades femininas amparam a evangélica exorcizada pela rua afora. Uma comenta com a outra.
Jarina - Eu acho perigoso, isso é uma loucura. Olha o que o pajé disse. O pai de santo também não gosta.
Mariana – Mas olha só como esta ficou. Gozou tanto que a Iara teve de subir, essa ai que é feliz.
- E ainda vai pensar que foi tudo obra dela. Será que é por isso que ela vai a macumba e ao templo?
- E tu já queres entender essas pessoas, que eles gostam, elas gostam.
- Tu não presta mesmo, mas se o pajé saber?
- E o pajé quer saber do que acontecem aqui fora, e ele vai querer saber que esse pastor é, é. Viste só na hora que ele agarrou por trás, viste a força, todo mundo viu, eu senti aqui. Domingo vai ser a minha vez.
- Não não. Tu reparou naquela outra que estava la na cadeira da frente, de vestido cinza e cabelo preso, pois é, vai ser com ela, ela quer porque quer, sonha toda noite com isso. Ela foi três noites atrás pedir isso lá para a mãezinha.
- Mas quando isso que eu não vi?
- Tu estavas incorporada no Manézinho e ele quer também.
- Há não, domingo que vem sou eu.








